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No Brasil, uma em cada quatro pessoas não tem acesso à internet. E, muitas, quando estão conectadas, não têm planos ou velocidades suficientes para navegar conforme suas necessidades. A pandemia parece ter acelerado uma conversa: ainda tem muita gente para entrar na internet.

 “Compartilhar ajuda a alimentar uma esperança, que vem da força do coletivo, de dividir sentimentos parecidos, vendo tantas pessoas pretas se articulando pra ajudar.”

Jéssica Ferreira, estudante.

“Poucas pessoas têm o privilégio de trabalhar em casa num país onde tem gente que não tem o que comer“, diz Jéssica Ferreira, que é estudante de políticas públicas na Universidade Federal do ABC e trabalha na Uneafro e na Coalizão Negra por Direitos.

“Ter esse espaço dentro de casa pra estudar, trabalhar, focar no seu autocuidado. Ter livros pra ler, acordar e fazer uma meditação. É muito triste que isso seja um privilégio. É muito triste que esse momento pode ser produtivo para pessoas que têm uma estrutura e não precisam se preocupar com uma renda. E é perigoso quando a gente fala desse ócio criativo/momento de produzir enquanto a periferia está sendo esmagada.” 

Ela ressalta o desafio que muitos jovens estão enfrentando. “Muitas vezes eles não têm estrutura física, material, psicológica de continuar os estudos. Espaço dentro de casa pra conseguir estudar, computador, internet… Quem pode viver com EAD (educação à distância)? A gente vive no século 21 da informação, mas essa tecnologia não é pra todo mundo. Como ajudar esses alunos que muitas vezes não têm o que comer, não têm água nem luz? Como exigir rendimento? A periferia sofre com o descaso e um não assistencialismo tremendo, isso sempre foi assim. O sistema continua privilegiando jovens de classes média e alta que conseguem ter estrutura mínima para continuarem estudando.”

Informação tem um papel chave nessa conversa. “Compartilhar ajuda a alimentar uma esperança, que vem da força do coletivo, de dividir sentimentos parecidos, vendo tantas pessoas pretas se articulando pra ajudar.” E recomenda páginas para seguirmos: @almapretajornalismo, @nosmulheresdaperiferia, Rede Jornalistas nas Periferias. 

Praticando o isolamento social, Jéssica tem usado a internet como única possibilidade de uma conexão. “Desde o trabalho, com reuniões, até a faculdade, porque sigo estudando, tentando. Tem sido importante pra manter o psicológico. Pra aprender, me distrair, ver um filme, lives, fazer videochamada. No fim do dia tá sendo ótimo ver amigos, a namorada. Acho que estamos vendo um aprofundamento da importância da internet na vida das pessoas.” 

E finaliza ressaltando que ficar em casa é um ato político. “Muitas pessoas que gostariam de exercer esse ato político não podem porque têm esse direito retirado. É um momento de solidariedade e entendimento. Por mais que não haja empatia pelo que as outras pessoas passam, precisa existir essa colaboração.” 


“A internet encurta distâncias, mas ela distancia também, principalmente no envolvimento que as pessoas têm com as pautas”

diz Yane Mendes, cineasta periférica, moradora da favela do Totó, no Recife. “A rede coloca muros onde não deveria ter, deixa pessoas muito acomodadas, passando o dia fazendo textão e no fim das contas sem uma atitude que faça diferença.” 

Como ir #alémdahashtag, como ter uma atuação solidária constante? Tem que vai compartilhar posts, tem quem vai fazer doação, tem quem vai pra linha de frente. São tantas as opções. O principal é o movimento, a ação em si. “A nossa vaquinha se chama Encha a panela porque num dá pra só bater panela, e sim encher panela de quem tá com a barriga vazia. A gente precisa de movimentação. Agradecendo a quem tá fortalecendo, mas provocando também”, diz Yane, que também faz parte da Articulação de Negras Jovens Feministas e da @redetumulto, que arrecada alimentos, kit higiene e leva informação para 12 periferias. 

Yane ressalta a necessidade de termos uma internet que chegue para mais pessoas e que valorize fontes seguras. “A gente consegue gerar grupos no Whatsapp nos bairros, fazendo filtragem do que é fake news, do que não é.” É no offline que a comunicação também acontece. “Como chegar em quem não tem acesso a essa linguagem da internet? Como vai ser educação à distância? Tentando encaixar a periferia nesse sistema que se vê homogêneo, que acha que todos têm acesso a tudo? Os impactos já acontecem no Enem, a gente não tem como concorrer igual. Ainda mais esse ano de pandemia, que a gente vive os impactos nos corpos, bolsos, nas barrigas vazias. Lutar por internet é lutar por democracia.”

“Não é só dizer que num é racista, classista, mas fazer sua parte.”

Yane Mendes, cineasta

Fazer nossa parte é ficar em casa – e ir além. “Também pensar no que pode fazer por quem não pode estar em casa. Se você pode fortalecer com alimentação, cesta básica, pagando uma internet, você faz. Por obrigação, por responsabilidade social. A gente tá precisando de amor. Não é só dizer que num é racista, classista, mas fazer sua parte. Não julgar quem tá na rua, muita gente tá porque precisa do comércio informal porque num tem o que comer de noite. Colocar uma garrafinha com sabão e água pras pessoas que estão na rua, fazer uma sopa. Se cuida, mas pensa e se mova por quem não pode estar em casa.”

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