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quer_É possível ter saúde mental na internet?

 

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Vamos falar sobre saúde mental?

Não é adequado do ponto de vista emocional não sentir medo diante de uma ameaça. “Estamos todos de certa forma adoecidos, principalmente nos últimos seis meses. Nós estamos sim suscetíveis, muito mais propensos a sentir as dores da existência do que estávamos antes de ficarmos isolados, com medo de contágio”, diz a psicóloga Louise Madeira, em entrevista para a Contente.

Ainda assim, ao acessar a internet às vezes pode parecer que tudo continua funcionando, que todo mundo “está bem”, menos você. Se identifica?

Por isso precisamos falar sobre saúde mental. “Esse assunto repercute na internet porque é uma dor coletiva, porque está todo mundo buscando um caminho para se salvar dessa existência, das relações, da pandemia, se adaptar à falta de dinheiro. Repercute porque é vida”, diz Louise, que faz falas terapêuticas curtas no ótimo podcast New Me (@newme.app). “A pandemia traz uma experiência novíssima de dar espaço para as dores e oferecer uma sustentação. É preciso dizer: eu sei que está doendo.”

Na internet podemos nos deparar com posts que dizem “vai ficar tudo bem”. E eles são válidos, claro. Mas como podemos aprofundar mais nesse turbilhão de ansiedade, angústia, por vezes depressão e outros transtornos? “Temos uma cultura que por algumas razões diz que não deveríamos ter dores e angústias. É saudável ter medo diante da ameaça, ter angústia diante do que é angustiante, ficar triste quando a gente tem uma perda.”

“A vida é uma total incerteza, mas sempre mascaramos isso com algumas certezas fictícias. A pandemia esfregou na nossa cara: você não tem certeza de nada, você não sabe do seu futuro. Não dá para fugir de nós mesmos, dos nossos relacionamentos. Acho que a pandemia não é boa para nada, mas acho que talvez a gente possa encontrar um eixo para pensar em fazer algo que seja bom para nós.”  

A primeira coisa do seu dia é o celular?

Você mal abre o olho e já pega o celular para dar aquela olhadinha, que logo viram uns 20 minutos. Qual o impacto disso na sua saúde mental?

“Você acorda já cheio de informação, de angústias”, aponta a psicóloga Louise Madeira, acrescentando que estamos todos, com algumas exceções, compulsivos por internet. “Quando uma pessoa me diz que precisou tirar o telefone do recinto para conseguir estudar, ou outra diz que precisou colocar o celular no modo avião para poder funcionar é porque já foram atropeladas pela internet.”

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Estamos todos com possibilidade de não ver mais graça no que não tem uma tela no meio, ela acrescenta. “Estamos almoçando e pegamos o celular para checar os nutrientes daquele prato. Se temos uma dúvida no meio de uma conversa, já pegamos o celular para conferir. Você vai contar uma história, procura o vídeo para mostrar. É como se a gente não tivesse mais narrativa. Era tão bonito quando a gente contava uma história com os sentimentos da gente, e não só mostrando coisas.”

Para revertermos essa fase de intoxicação, precisamos aprender a administrar o tempo que a gente passa por aqui. É menos sobre controle e mais sobre consciência. “Até uma criança está tendo dificuldade de interpretar o sentido da tela. Antes a tela era o jogo, mas agora a tela é a aula também.” 

O que você tem feito para não ficar por aqui horas sem nem se lembrar mais o motivo que te fez pegar o celular?

Duas propostas para usar a internet e preservar sua saúde mental:

Se antes questionávamos quanto tempo passávamos na internet, hoje ela se instaurou na nossa vida em outra perspectiva. Passamos mais tempo, afinal muito da nossa vida acontece por aqui, por essa tela que é, ao mesmo tempo, trabalho, encontro, informação, distração. 

“A internet é boa, a forma como a gente usa a internet pode ser péssima”, diz a psicóloga Louise Madeira. “Uma criança de um ano, se você coloca vários brinquedos e um celular, ela vai perseguir a luz da tela. Tiro o chapéu para quem faz esse projeto de vício coletivo da humanidade.”

Como lidar melhor com essa ferramenta onipresente nas nossas vidas? “Quando a internet está muito dissociada da vida, quanto mais distantes forem os conteúdos da minha própria   vida, tanto o que produzo quanto o que consumo, maior minha ansiedade. Uma menina jovem que está com problema de autoimagem corporal, que não está feliz com seu corpo, quando consome imagens de corpos ‘perfeitos’ vai sentir ainda mais angústia. Se ela consumir postagens que mostram ‘imperfeições’, entre aspas porque somos todos imperfeitos, ela pode melhorar na dificuldade.”

O mesmo vale para quem produz conteúdo. “Quanto mais o que você está dizendo é parecido com o que você realmente pensa, mais você se realiza, fica feliz com sua relação com a internet.” Nada como ser mais a gente e menos personagem, né?

A chave para essa autenticidade que contribui para a nossa saúde mental? Curadoria. Escolher bem o conteúdo, o que vamos consumir de informação, quem vamos seguir. “Existe um apelo de consumo que mostra o que a gente não pode, o que não tem, o que a gente não é. Isso gera consumo de muitas outras coisas, que reforça a falta e dá a sensação de que vai suprir sua falta. Como se a falta humana fosse suprível. E não é. É preciso saber da sua falta, sustentar também sua angústia de viver”, completa.

Você tem conseguido lidar bem com o que falta? Tem conseguido pensar no que preserva e no que divide na internet?

4 perguntas para se fazer ao usar a internet e cuidar da sua saúde mental

A internet é sedutora, conquistadora, incansável – e desperta todo tipo de emoção na gente. Nos acostumamos a um ciclo que se repete todos os dias, nas inúmeras horas que passamos por aqui. “Mesmo um conteúdo incômodo pode dar um barato, tem aquela tela colorida… Quando você vê outra pessoa esnobando riqueza no Caribe, para ficar numa imagem clichê, você quer ver mais daquilo”, aponta Louise Madeira (@newme.app), psicóloga, nossa convidada especial desse mês de setembro em que falamos de saúde mental.

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A internet é sobre excessos. “O grande convite da internet é deixa eu te mostrar uma coisa. E quando eu te mostro uma coisa, a internet diz: deixa eu te mostrar outra coisa”, diz ela, citando o comportamento das pessoas mais velhas no Whatsapp. “O tempo inteiro elas querem mostrar. Não é à toa que a gente vai abrindo coisa, coisa, coisa. Posso ficar todo dia compelido a ver mais, e isso gera compulsão. Compulsão é querer repetir, repetir, repetir, e não mais me sentir bem quando estou fazendo aquilo”, explica, acrescentando que a internet pode tirar muito dos nossos relacionamentos com outras pessoas. “Atendo casais, e o telefone celular é um catalisador de uma crise que já está ali.”

A gente precisa aprender a administrar esse tanto de estímulo. “Precisamos dizer assim: não, internet, eu não quero ver nada agora, só o que eu vim buscar.” Por isso, mais do que apontar quantas horas é saudável navegar por dia, Louise bate na tecla da consciência. Veja no álbum algumas perguntas para você passar melhor seu tempo por aqui.

Que tal experimentar respondê-las antes de voltar a navegar?

Não é natural sentir ansiedade o tempo inteiro.

Viver em 2020 traz inúmeros motivos para ficarmos ansiosos – e passar horas na internet contribui também. Como identificar quando um quadro de ansiedade precisa de ajuda? E, ainda, o que fazer para não deixar o digital ter influência nisso?

“É hora de procurar ajuda quando os sintomas são muito intensos e perduram por muito tempo, sem uma questão mais específica, como uma mudança de vida (mudar de escola, casar, sair do país, por exemplo), que naturalmente gera movimentos de ansiedade. Quando os sintomas perduram, a pessoa precisa retomar os mecanismos de enfrentamento que ela tem e que não estão sendo suficientes naquele momento”, diz Cibele Marras (@cibelemarraspsicologia), especializada em psicologia das emergências e desastres.

A era digital nos ajuda a nos aproximar das pessoas, a ter acesso a conhecimento e informação em abundância, lembra Cibele. Por outro lado, traz excessos. “Achamos que precisamos dar conta de tudo, e isso vai causando uma ansiedade. Mas a gente não tem como dar conta de tudo que está nossa realidade digital.” Nem precisamos ser produtivos o tempo todo, acrescenta. “Produtividade não significa necessariamente entregar mais. É fazer o que você sabe de um jeito bom, que também traga resultados para você na sua vida pessoal. Não adianta você estar bem no trabalho e sua vida pessoal não estar boa. É uma busca de cada pessoa de entender como vai equilibrar a balança.”

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Para lidar com esse momento que é desafiador por si só, Cibele recomenda: “A gente tem que buscar não ficar só conectado. Ir para a vida real, para as relações. Não ficar absorvendo notícia o tempo inteiro, aprender a filtrar. O mundo virtual está aí para apoiar a gente na vida real”. Acrescentando que precisamos buscar pequenas pílulas de autocuidado no nosso cotidiano. “Entender o que é importante para você, o que te faz relaxar, se sentir bem – e dar um pouco disso para você todos os dias. Para se sentir recarregado.”

Resista ao impulso de aconselhar quem divide um problema com você.

É quase inevitável: você ouve de um amigo que ele está se sentindo mal, na sequência já dá aquela vontade de apontar alternativas. “Por que você não faz isso? Já experimentou aquilo?” A princípio, um conselho pode ser uma forma de acolhimento, mas será que é a melhor? 

“A gente tem uma educação de crítica, de dar pitaco sem ninguém ter pedido. Somos condicionados a sempre julgar o outro, e isso não ajuda nossas relações”, diz Eliane Soares, porta voz do CVV (Centro de Valorização da Vida, @cvvoficial), uma das instituições que divulga o Setembro Amarelo, iniciativa que começou em 2015 para disseminar informação sobre prevenção do suicídio. 

“No telefone, quando a gente atende alguém, do que uma pessoa precisa? De alguém que a respeite, a compreenda, a aceite como é. Quando a gente vai pro conselho é aquele ditado: se fosse bom, a gente vendia. O que é bom pra mim, como um simples chá de boldo, pra outra pessoa pode ser ruim, ela pode ter intolerância a um componente. No íntimo, cada um de nós sabe o que é bom para si mesmo. Às vezes o que falta é a coragem de assumir as responsabilidades e as rédeas das nossas vidas. Precisamos de tempo de elaboração, precisamos nos preparar internamente para tomar uma ação”, completa. 

E como fazer isso no dia a dia? “Exercendo empatia, tentando se colocar no lugar do outro para entender o que ele está vivenciando. Quando fazemos isso, podemos ser quem somos, vamos aceitando as imperfeições também, as nossas e as dos outros.” Vale, inclusive, aplicar sempre um filtro aqui na internet. “Muita gente publica um mundo ideal. Quando não me encaixo, dá ansiedade e sofrimento. Às vezes o jovem fala disso no telefone. Como dosar? Entendendo que nem tudo é verdadeiro, que aquela pessoa sente tristeza, que quem é perfeito nas redes fica doente também.”

O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias. Para conhecer, acesse www.cvv.org.br.

É possível criar sem ansiedade?

A produção de conteúdo foi de diversão para a maior pressão. Será que dá pra gente sair do frenesi das fórmulas de sucesso e criar com mais presença, autenticidade e alegria?

Separamos no vídeo algumas dicas sobre como o processo de criação pode ser mais saudável. Confira:

https://www.instagram.com/p/CFrX7KAnv78/

Que super poder você vai usar para contar a sua istória?

@euestou é um projeto sobre saúde mental. Foi criado em 2018 e mudou a vida de MM Izidoro (@mmizidoro), um de seus criadores. “O teaser foi ao ar, dois dias depois recebemos mensagem de menina de 13 anos dizendo: ‘Conheci vocês no que seria o último dia da minha vida, e o vídeo me salvou’. Pirei. Se faço um comercial que não dá certo, vendo menos xampu. No projeto, a mensagem toca a menina, a família, a escola… É tão maior.”
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Marcel, que é escritor, diretor e roteirista, entendeu ali muito do poder da internet: onde chegam nossas mensagens? E mudou sua relação. “Precisava me alimentar de coisa boa. Se ficasse só consumindo conteúdo de fofoca seria como ter uma alimentação só de hambúrguer.”
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O auge da reflexão foi a direção do áudio documentário e do podcast #AmarEloPrisma, do @emicida. “Criamos um conteúdo extenso em áudio, em um momento em que muita gente faz conteúdo de 15 segundos.” Tudo com base no diálogo e no entendimento de usar o superpoder da narrativa para disseminar mensagens. “A criação da comunidade é muito mais importante do que o conteúdo. Para fazer isso você precisa ser um lugar de escuta. E escutar você também. Quantas vezes você se pega dando scroll no feed pra nada?”. Nessa reflexão, invoca tempo e processo. “Produzo muito porque trabalho pouco. Para escrever um Prisma, tenho que estar na horta, lendo Budismo, ouvindo música africana, falando com meu avô. Porque aí um dia sento 8 horas no computador e tudo sai.”
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Em uma internet frenética, Marcel finaliza com a ideia de que a gente precisa se acessar, saber quem abriu caminho, dividir nossa potência. “Se todo mundo brilhar um pouquinho, a gente vira uma constelação. Não importa a maneira, faça algo. Tem quem vai fazer um bolo, cuidar do vizinho, quem vai criar conteúdo que vai falar com milhões de pessoas. Se cuidar do um, cuida do outro, se cuidar do outro, cuida de todos. Que superpoder você vai usar para contar sua história?”

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