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quer_crianças e telas: como encontrar um equilíbrio?

 

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Crianças e telas: uma conversa necessária e um tanto complexa, ainda mais no período que vivemos. Se até o ano passado a discussão girava em torno dos protocolos recomendados pelas associações de pediatria no mundo sobre esse assunto, a pandemia veio para chacoalhar tudo: entre a recomendação e a realidade dos lares que também viraram escola e lazer, tudo isso enquanto os pais e cuidadores – principalmente mulheres – tentam equilibrar outros inúmeros pratinhos, como podemos pensar em uma relação mais saudável das crianças com o digital?

Se você não deixaria uma criança sozinha na rua, também não deveria deixar na internet

Conversar sobre tempo de tela é falar de privilégio. “Distribuição de tempo de tela traduz uma inequidade social absurda. O uso fortalecedor da tecnologia é proporcional ao privilégio social. Quanto mais você sobre na escala social, mais chance de a criança ter repertório, de ter uma experiência esclarecedora na internet”, diz Mariana Ochs, coordenadora do @educamidia, programa do Instituto Palavra Aberta criado para capacitar e engajar a sociedade no processo de educação midiática dos jovens.
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Para pensar na relação dos pequenos com a internet, um bom questionamento a se fazer é: você deixaria uma criança sozinha na rua? “Precisamos ajudar a criança a construir autonomia. Para isso, você vai junto, orienta, constrói passo a passo, vai soltando aos poucos a criança no ambiente público. A internet também é um ambiente público.” E, claro, dá trabalho fazer isso, mas é nosso papel. “Não adianta proibir uso de telas, precisamos transformar em conversa. A gente não pode terceirizar a responsabilidade dessa bagunça que a gente está vivendo. Tudo bem que o design e a governança são importantes, mas precisamos formar leitores melhores para esse ambiente”, diz.
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Não vale, também, culpar pais, mães e cuidadores. “Agora que não temos muita escolha, entendo que tempo de tela está liberado.” De novo, não é sobre tempo, mas sobre bom senso, qualidade e finalidade da experiência. “É olhar para a tecnologia como possibilidade de colaboração. Tem idades apropriadas pra poder falar de certas coisas. Se você não ensina, se não media a entrada das crianças no ambiente digital, cria um consumidor passivo e perde uma oportunidade de educar para um uso consciente e educador da tecnologia.” Estamos prontos para incluir a conversa sobre internet no dia a dia dos pequenos?

O que as crianças acham mais legal na internet?

Ouvimos crianças e pré-adolescentes sobre o que eles acham da internet: o que é mais legal? O que é mais cato? Reunimos as respostas neste vídeo no nosso post do insta!

Você sabe o que o seu filo está acessando?

Navegar junto é preciso. Saber o que seu filho acessa é fundamental para que o diálogo se estabeleça – e também para que a orientação seja feita de forma mais próxima, sem tantos dogmas, e sim com conversa.
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“Crianças de 9/10 anos que consomem YouTube freneticamente não sabem que aquilo é monetizado. Não distinguem o que é propaganda do o que é conteúdo, não entendem quanto vale seu like. É muito importante você saber o que o seu filho está vendo. Ali existe um universo de coisas a serem discutidas”, diz Mariana Ochs, do @educamidia.
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Ela acrescenta que, mesmo com os mais velhos, vale sentar junto e assistir a uns vídeos. “Sei que é uma coisa chata de se fazer, mas acompanhando, dá para conversar sobre o que é fortalecedor, sobre o que promove preconceito. Quanto mais porcaria seu filho estiver vendo, mais os algoritmos vão entregar porcaria. Temos um papel importante de tentar influenciar recomendações.”
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Citando a Common Sense, organização que estimula um uso seguro da tecnologia pelas crianças, ela recomenda ver o histórico de navegação. “Um dos maiores problemas com pré-adolescentes é eles caírem num buraco de que uma hora estão vendo um vídeo de música, depois estão vendo teoria da conspiração. Crie uma conta para cada pessoa da família. Influencie o histórico do seu filho, puxe coisas da sua infância. É um hack, uma coisa de guerrilha. Quanto mais coisa bacana você inserir, mais chance de influenciar. É muito importante a criança ter ferramentas para decidir no que vai acreditar, no que não vai acreditar. Que discursos ela vai considerar adequados ou desrespeitosos?”
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Toda a discussão, diz Mariana, é importante para que as crianças e os adolescentes possam aprender a eles mesmos fazerem esses julgamentos. “A gente sabe que na vida precisamos educar as crianças e dizer que não pode tratar mal os colegas, que isso é desrespeitoso. A gente não pode achar que vai se eximir dessa discussão no digital.”

Você sabe quem são os ídolos do seu filho?

“Vamos parar de fingir que as crianças não usam telas? Que só pode depois dos dois anos? Na vida real isso já acontecia, mas só na pandemia que virou uma conversa. E isso deu uma acalmada no coração de muitos pais e mães.” Quem diz é Deh Bastos, comunicadora, mãe do José, de dois anos, e criadora do perfil @criandocriancaspretas. “É open bar de tela. É o que está dando para fazer, para administrar”, ri.
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Admitir o exagero pode funcionar como um primeiro passo para fazer um uso mais consciente. “É mais fácil agir se você trabalha ao lado do seu filho e consegue ver o que ele está acessando.” No seu caso, o seu filho ainda é muito pequeno e troca o celular por qualquer brincadeira. Na experiência com a página, Deh recebe inúmeros relatos, inclusive sobre as dificuldades de ver a casa virar escola.
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“Me incomoda quando a gente está na internet mas não se dá conta de que o filho está vendo vídeos de crianças abrindo brinquedos, de coisas sendo destruídas. E eles fascinados. Tem um excesso de publicidade, de personagem. Você está mandando um textão e não se dá conta que a criança está ali do lado consumindo o que você condena.”

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Ela aproveita para deixar uma provocação: você sabe quem são os ídolos do seu filho? “A gente está muito preso em um conflito com as gerações mais velhas, mas ainda não se deu conta de que a internet está trazendo um conflito de geração com os mais novos. Quem se considera ‘descontruidão’ está sabendo do que os ídolos dos nossos filhos falam?” Sem contar que nenhum desses ídolos é uma criança preta, acrescenta. “No Tik Tok existem crianças negras que fazem sucesso se autodepreciando. Tem muito adolescente se colocando como alvo de piada. Quais os impactos disso na autoestima deles?”
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É preciso se aproximar da relação dos pequenos com a internet. “Precisamos entender melhor quais são os signos que interessam a eles. É música no Tik Tok? Então vamos lá. Ficar perto, para aí sim orientar na construção de um uso melhor.”

Seja você o piloto desse avião!

Na casa de Roberta Ferec (@robertaferec) as crianças sabem que “tempo de tela” é o tempo que sobra, e não pode roubar o tempo que seria destinado a atividades absolutamente essenciais para a saúde e o bem-estar deles, diz a autora do livro “Tela com cautela” (@editoramatrescencia). “Quando comecei a estudar o assunto fui mais guiada pelo que estava acontecendo com os adultos, a minha relação com tecnologia, a do meu marido, das minhas alunas e seguidoras. Percebi o excesso de uso como algo que impedia que elas fizessem o essencial: o tempo com a família, o sono, o autocuidado.”
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Seus filhos têm 6, 8 e 11 anos e sabem que existem coisas na vida que a tela não pode fornecer, como tempo junto, o olho no olho, sono de qualidade, brincadeira e atividade física. É por isso que a família criou seus limites e combinados quanto ao tempo, o conteúdo, os locais e momentos em que as telas são ou não são bem-vindas. Ninguém está autorizado a usar na mesa de refeições. “No quarto é inaceitável. Existe bastante pesquisa que indica que aumentam riscos de cyberbullying, de se tornarem vítimas de predadores sexuais e de piorar a qualidade do sono. Acontece muito de adolescentes adiarem a hora de dormir num momento em que dormir é essencial.”
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Além dos combinados, é importante o diálogo aberto sobre o bom uso. “Sobretudo para crianças e adolescentes que já fazem uso de smartphones, temas como sexting, fake news, distração, selfies, conteúdos impróprios e redes sociais precisam fazer parte dos novos diálogos e da mediação digital.”
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Por outro lado, ela destaca os benefícios, como as crianças ficarem mais próximas da família, principalmente durante a pandemia, e terem acesso a apps de qualidade. Ela acrescenta que a maioria dos especialistas concorda que nós, sociedade, não temos um problema de vício, mas de maus hábitos. “Se é hábito você tem controle e possibilidade de mudar.” 

Não basta proibir, é preciso ensinar

89% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos são usuárias de internet no Brasil – isso corresponde a 24,3 milhões de pessoas. Os números são altos, mas ainda há muita desigualdade. “Nesse momento de pandemia precisamos falar dos números. A gente tem que considerar aqueles que não têm acesso quando a educação está sendo feita de forma remota. Uma parcela da população está totalmente excluída: ou pela má qualidade, ou por não estar conseguindo se adaptar da mesma maneira”, diz Luísa Adib, coordenadora da pesquisa TIC Kids Online 2019, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (@nicbr).
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O celular é o principal dispositivo de acesso à internet. Atividades multimídia, de comunicação, educação e busca por informações estão entre as mais realizadas. Outro dado que chama a atenção é que 29% desse público de 9 a 17 anos ajudaram seus pais ou responsáveis a fazer algo na internet todos os dias ou quase todos os dias.
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“Você precisa conhecer o ambiente para orientar. Se os pais têm escolaridade mais alta, as proporções de atividades de orientação e verificação são mais altas também.” Principalmente nas classes C, D e E, aumenta o número de crianças que ajudam os pais a fazerem algo na internet. “É super importante que a mediação parental seja valorizada e que os pais compreendam a influência sobre um uso consciente e responsável da internet. O diálogo é fundamental. Atividades restritivas não são as mais eficientes. Em algum momento a criança pode se deparar com um risco e não ter desenvolvido a habilidade para aquilo”, diz ela, completando que não só pais e responsáveis precisam orientar, mas escolas, onde ainda é baixo o uso de internet, Estado, empresas. “Se a gente informa e orienta uma criança, ela tem o potencial de propagar o uso mais seguro e responsável entre os pares. Todos os atores com quem a criança convive são importantes nessa equação.”

Você já leu um livro digital para o seu filho?

A qual conteúdo as crianças ao seu redor têm acesso? Seja na internet, seja na TV, seja em qualquer meio? Fomos conversar com a Isabel Malzoni, criadora da @editoracaixote, para saber como os livros digitais podem entrar na gincana do entretenimento. “Há os apps literários, que são livros digitais interativos, e também os e-books e PDFs. Os apps propõem uma leitura multimodal. Ou seja, eles apresentam o texto e a imagem, como em um livro ilustrado, mas também movimento, interatividade, trilha e efeitos sonoros. Para ler esses livros, o leitor precisa fazer sentido de todos esses modos juntos, e isso pressupõe e exercita uma leitura mais complexa, que lida com muito mais elementos”, diz ela.
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Ela acrescenta que interatividade com propósito convida a a criança para uma participação ativa, e isso é muito positivo. “Interatividade não é oferecer um grande número de gatilhos para serem clicados aleatoriamente. Há vários apps assim, que realmente distraem, porque há às vezes uma concepção superficial sobre o uso do digital para as crianças, que acredita que ‘criança gosta de clicar em tudo’.”
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Pra finalizar, questionamos: por que ainda é mais fácil ver crianças no iPad ou no YouTube do que consumindo apps literários? “Ler pede um esforço. Você precisa decifrar aqueles símbolos, fazer sentido deles. É uma atividade intelectual, que se relaciona com as seu repertório. Não é à toa que há tanto empenho em se formar leitores. É claro que depois, leitor formado, é uma delícia. Jogar e ver vídeos não pede esse esforço. Os jogos, em sua maioria, são feitos com a intenção de ‘fisgar’ o usuário, com uma série de estímulos-recompensas difíceis de largar. Acontece com os adultos, por que não aconteceria com as crianças? O livro não faz isso porque se baseia em um arco narrativo, tem começo, meio e fim. Não fica pedindo ‘de novo, de novo’.” Veja uma lista com sugestões no álbum.
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Como anda a relação com leitura na sua casa?

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