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quer_o digital e a pandemia

 

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Quando o mundo muda do lado de fora, muda também dentro de nós. Inevitável mudar também dentro das nossas telas. O que será que tem acontecido no território do digital enquanto enfrentamos essa crise? E as nossas principais mazelas digitais, aqueles efeitos colaterais de que padecíamos enquanto aproveitávamos nossas redes preferidas? Você já sentiu alguma diferença? Por aqui, já. Como tem sido a sua experiência digital? Comparação, ansiedade, medo, excesso. Você ainda têm sentido essas emoções na mesma medida?

E como anda o FOMO?

Para começar, você lembra do FOMO, o medo de estar perdendo algo? Já reparou que ele não tem aparecido com tanta frequência? Afinal, sabemos que grande parte de nós está – ou deveria, se tem as condições – em casa. Se perder algo antes poderia ser um sinal de fracasso, agora o oposto é o verdadeiro. Quem pode #ficaemcasa, e assim a gente ajuda a achatar a curva de contágio pelo novo coronavírus. Podemos até sentir vontade de participar de mais de uma live ao mesmo tempo, mas, pelo menos por aqui, o FOMO não vem com a mesma força que sentíamos antes disso tudo começar.

Uma pausa nesse sentimento é uma grande oportunidade para pensar no que ele tem provocado em nós. Há anos, por meio das ferramentas digitais que mais adoramos, experimentamos na pele o desejo de estar em outro lugar que não o que estamos – em lindas férias, festas, jogos, eventos, seja qual for a sua praia. Aliás, não importa onde estivéssemos, seria sempre melhor estar na praia. Esses sentimentos não somente sequestravam nossa presença – desviando nosso foco no momento presente – mas também nos ofereciam constantemente estímulos para o consumo. É também o FOMO que nos leva a querer sempre mais: coisas, oportunidades, experiências.

Percebemos que, por anos, ele também tem sido um elemento fundamental para, querendo ou não, nos desconectar de nós mesmos. Sem ele, temos a oportunidade de um reencontro com um universo interno que evitávamos, já que estávamos ocupados com tantos outros desejos. Como tem sido essa nova experiência para você? Ainda sente o FOMO ou não se lembra mais dele?

Celebridades: sem poder compartilhar um padrão de vida espetacular, o que elas têm para nos acrescentar?

Em um momento em que a maioria das pessoas que tem condições de fazer isso deveria estar em casa, as experiências de vida de quem tem as necessidades básicas atendidas acabam se aproximando um pouco. Um dia pode ser mais ou menos produtivo, com exercício ou não, de repente alguma invenção do que fazer com as crianças, um teste de uma receita, assistir algo online… Mas não muito mais do que isso. Se um dos maiores atrativos das celebridades é a vida utópica que levam, desfilando entre viagens espetaculares e oportunidades exclusivas, o que os resta em uma época como essa? ⠀⠀⠀⠀

A pandemia ajudou a evidenciar ainda mais a desigualdade. As celebridades, mesmo as mais bem intencionadas, ajudam a escancarar isso. De repente o conteúdo que era baseado somente em estilo de vida parece completamente desnecessário – ou até mesmo fora do tom.

O autocentramento cai tão mal como quando assistimos a um filme como “Parasita”. Se vínhamos de uma ode tão grande ao individualismo que parecia que nunca teria um fim, este novo momento parece convocar todos nós a prestar atenção no extremo oposto. Fica mais forte o convite de pensar em como, juntos, vamos atravessar tudo isso. E em como podemos apoiar quem mais está sofrendo com a pandemia.

A menor diversidade de assuntos, nos ajuda a manter o foco?

De repente a multiplicidade de conteúdos e assuntos que nos interessavam e nos estimulavam incessantemente em nossas telas parece ter reduzido drasticamente. Alimentação, atividade física, como cuidar do dinheiro, como cuidar da cabeça, como será o futuro? Por aí se fala em alguma outra coisa? ⠀⠀⠀⠀

Se antes nossa atenção poderia parecer a bolinha de um fliperama saltitando diante de tanto assunto, agora parece que ela salta por menos obstáculos, pelo menos. Quem mais está sentindo quase uma diminuição na pauta do mundo quando o assunto somos nós mesmos? Agora a dúvida que fica é a de entender se essa diminuição de assuntos será capaz de nos trazer mais foco para o que verdadeiramente gostaríamos de prestar mais atenção.

Quanta coisa a gente não precisava comprar

E como fica o estímulo ao consumo em tempos de pandemia? Muitos negócios podem até se perguntar: como ficam os negócios e a propaganda agora? Um dos pontos que esse contexto escancarou foi como a nossa economia é também baseada em uma quantidade enorme de produtos supérfluos. Se a internet antes oferecia um estímulo constante ao consumo até mesmo onde menos esperávamos, os mesmos estímulos hoje podem parecer sem sentido. ⠀⠀⠀⠀

No importante artigo “Imaginar os gestos-barreiras contra o retorno da produção anterior à crise”, o antropólogo e filósofo francês Bruno Latour nos convida a reflexão: “Se tudo estiver parado, tudo pode ser questionado, modificado, selecionado, classificado, interrompido para o bem ou, ao contrário, acelerado. O momento de fazer o inventário anual é agora. O pedido do senso comum ‘Vamos reativar a produção o mais rápido possível’ tem que ser respondido com um grito: ‘Nem pensemos nisso!’. A última coisa que devemos fazer é retomar, da mesma maneira, tudo o que fazíamos antes.” ⠀⠀⠀⠀

Considerando o âmbito do digital, podemos refletir tanto como consumidores – o que é que estou deixando de comprar agora por ter percebido que não era essencial na minha vida – como produtores – o que é que eu estava vendendo que pode ser aprimorado, repensado. ⠀⠀⠀⠀

Finalizamos com as palavras da empreendedora Marie Forleo: “A verdade é que nós precisamos um do outro. Todo ato de bondade e contribuição é importante. Os empresários e consumidores têm um papel importante a desempenhar na cura do nosso mundo. Precisamos que todos façam sua parte social, espiritual, física e economicamente. Esta é uma enorme oportunidade de criar esperança a partir de nossa mágoa coletiva. Como proprietários de empresas, esta é a nossa chance de nos tornarmos mais cuidadosos, generosos e criativos.” ⠀⠀⠀⠀

Como você está lidando com o consumo nesses tempos? Como trabalhador, o seu negócio sentiu ou está sentindo a necessidade de uma reinvenção?

Será que estamos votando a usar a internet como ela sempre deveria ser usada?

Não podemos e não devemos relativizar a complexidade de uma crise que pode se agravar nos próximos meses. Mas podemos, enquanto vivemos esta experiência, refletir sobre o que tem acontecido com nós mesmos e com os demais aspectos das nossas vidas. Afinal, é assim que aprendemos, por meio da experiência. ⠀⠀⠀⠀

O foco dessa comunidade é sempre pensar no impacto do digital. Neste momento, não parece que estamos todos experimentando o digital de uma “antiga” nova forma? Usando a internet com a verdadeira intenção de nos conectarmos, tamanha a falta que sentimos dos encontros offline.

É também muito interessante observar a cooperação das empresas de mídias sociais para combater a desinformação em torno da epidemia. Se você pesquisar “coronavírus” no Facebook, Google ou Twitter, você será direcionado para fontes oficiais de informação. Até o presidente do país teve posts deletados tanto no Facebook quanto no Twitter após as redes entenderem que o conteúdo publicado causava desinformação. Por que não poderia ser sempre assim? ⠀⠀⠀⠀

Também é bonito observar novos influenciadores se estabelecendo: médicos, cientistas e especialistas. Estamos aprendendo na marra que sem fontes confiáveis e embasadas não temos nenhuma chance contra este desafio.

Se o digital é onde podemos nos encontrar, se até mesmo para receber um auxílio financeiro governamental é preciso estar online, se torna ainda mais urgente a inclusão digital. No Brasil, 30% da população não têm acesso. E, dentre os 70% online, muitos não são alfabetizados digitalmente e capazes de aproveitar o melhor da rede – ou até mesmo de fazer o básico.

De toda forma, em alguns aspectos esta crise está mostrando que a internet ainda é capaz de nos unir. Podemos aproveitar esse momento para investir na #ainternetqueagentequer, cuidando dos nossos espaços digitais, reforçando nossas conexões e usando a tecnologia não só para nos distrair da crise, mas também para melhor atravessá-la.

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