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quer_vamos falar de gatilhos?

 

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Escute este conteúdo:

“Apaga, isso tá me dando gatilho.”

Quem aí já leu ou ouviu essa frase? O termo gatilho pode ser usado para expressar o efeito de quando alguma coisa que vemos ou lemos dispara uma reação emocional dentro de nós. É algo que acontece o tempo inteiro, certo? No entanto, o termo passou a ser usado para avisar previamente sobre a possibilidade de um conteúdo mais duro online. Você talvez já possa ter visto um “alerta de gatilho” em conteúdos que abordam algum tipo de violência, por exemplo. Tanto pessoas quanto as próprias redes sociais podem sinalizar, antes de termos acesso a um tipo de conteúdo, que as imagens ou o que relato representado é forte. Quem já sofreu de uma violência similar ou simplesmente não deseja consumir esse tipo de conteúdo pode então escolher seguir adiante ou não.

O termo virou meme no ano passado, quando uma jovem recebeu um pedido para que ela apagasse um áudio carinhoso do pai, com a justificativa de que milhões de pessoas não tem contato com o próprio pai. O pedido um tanto exagerado virou fonte de infinitas piadas e banalizou o tema. Afinal, se ampliarmos o entendimento da expressão, tudo pode ser um gatilho. Então como lidar com os conteúdos que nos despertam sensações de todos os tipos na internet? Qual é a responsabilidade de cada um de nós sobre esse tema?

O que é um gatilho para você? Diante de um conteúdo que você considera um gatilho, o que você faz: alerta quem escreveu, deixa de acompanhar ou lida com aquela emoção internamente?

É absolutamente impossível adivinhar todos os gatilhos possíveis para todas as pessoas”, afirma a psicóloga @cecilia.dassi em conversa com a Contente. Os gatilhos podem partir de absolutamente qualquer situação. “Se alguém descobriu que alguém que ela amava muito faleceu enquanto ela tomava sorvete, sorvete pode ser um gatilho pra ela”, afirma.

Mas é claro que existem alguns temas que, de modo geral, podem ser um gatilho negativo para um grande número de pessoas, como as violências – sexuais, agressões etc. Quando tocamos em temas como esses, podemos considerar que muitas pessoas que já sofreram traumas podem ter uma forte reação. Não queremos despertar sentimentos difíceis sem responsabilidade e podemos repensar se vale criar ou passar esse tipo de conteúdo adiante.

O que pode ser um gatilho?

Para além do cuidado com temas mais fortes, é difícil prever como cada conteúdo pode afetar alguém. Ao decidir sobre qual conteúdo vale a pena compartilhar, a psicóloga @cecilia.dassi usa a seguinte estratégia: “Gosto de pensar sobre qual é o custo benefício de falar sobre o tema. Me questiono sobre o que existe de potente em uma fala – qual é a possibilidade de agregar, ajudar, contribuir, transformar alguma coisa positivamente – e também o quanto eu tenho potencial destrutivo nisso. É só pra fazer uma piada? É só pra trazer like? Se só algumas pessoas podem se beneficiar mas a maioria talvez possa sofrer mais, pra mim não vale a pena. Tento colocar na balança o potencial de cada tema (e até de cada frase, cada palavra). Mas sei que sempre existirá o risco de oferecer um gatilho negativo para alguém. É muito difícil ter esse tipo de controle.”

Como abordar temas sensíveis com responsabilidade?

Quase todo mundo já deve ter vivido algo parecido: você abre uma das suas redes e dá de cara com um conteúdo violento que diz “Absurdo!! Precisamos denunciar e encontrar quem fez isso!!” e só.

É possível entender a motivação de quem passa esse tipo de conteúdo adiante (violência doméstica, contra animais etc). Mas, antes de encaminharmos um conteúdo para mostrar que nos importamos com situações injustas, seria melhor se realmente refletíssemos sobre como de fato contribuir para que a situação em questão não aconteça mais. Vale a pena pensar:

 – Checagem da informação:

Verifique a veracidade e a fonte da informação. Espalhar conteúdo sensível sem saber como ou quando ele aconteceu, ou até mesmo se o caso já foi resolvido só vai espalhar mais sentimentos negativos para todos;

 – Se preciso, acione autoridades:

Se recebemos um pedido de ajuda, podemos refletir sobre quem de fato poderá ajudar: se as Polícias Civil e Militar, se o Ministério Público ou qualquer outro tipo de órgão responsável de acordo com o ocorrido. Caso você não saiba, pode pedir ajuda a quem possa te ajudar, em vez de espalhar o conteúdo para toda a sua rede de amigos e familiares;

 – Sinalize o conteúdo:

Após realizar esta análise, se você ainda considerar que é importante passar esse tipo de conteúdo adiante e sentir que ele pode ser benéfico, tome os cuidados necessários. Você pode inserir no início da sua mensagem um alerta como “Aviso de gatilho: violência doméstica”, por exemplo. Também pode adicionar uma capa antes de divulgar uma imagem ou um vídeo.

Para conviver melhor

Todos sabemos que não só conteúdos violentos podem nos causar sensações negativas. Talvez a única forma de não incomodar ninguém na internet seria não postando nada nunca. Mas até assim poderíamos ser considerados omissos. A tarefa é difícil, mas na #ainternetqueagentequer sempre gostamos de pensar sobre como um conteúdo pode ser benéfico para o maior número de pessoas.

Um questionamento que gostamos de fazer é o seguinte: estou postando pelos likes e pela atenção ou porque tenho algo a compartilhar ou mostrar? Essa régua costuma ajudar caso você esteja tendo alguma dificuldade em compartilhar conteúdo. Caso identifique que é mais pelo primeiro motivo, você pode usar outros recursos: compartilhar somente para os melhores amigos no Instagram, no Whatsapp e até mesmo buscar dar a si mesmo a validação que está buscando do lado de fora. 

Também achamos que diminuímos as chances de afetar negativamente as pessoas quando mostramos mais aspectos das nossas vidas, não só as conquistas. Uma audiência pode se conectar muito mais com uma vitória quando entende que aquilo fez parte de um processo, que não aconteceu milagrosamente. Todos sabemos que a vida é cheia de altos e baixos, mas quando vemos somente fragmentos da vida dos outros, parece que nos esquecemos disso. Então não custa nada ajudarmos a mostrar histórias mais completas das nossas vidas. 

Agora, se você sente que tem algo a dizer, não deixe de comunicar porque tem a chance de dar gatilho em alguém: todas as histórias importam.

Você tem, eu não tenho: cuidados com a ostentação

As redes sociais promovem um ambiente propício à ostentação, por mais que esse tipo de conteúdo esteja sendo cada vez mais questionado. A maioria dos perfis mais populares segue crescendo com base na exibição de situações de conforto e de consumo. Então nos perguntamos: o quanto a ostentação (consciente ou inconsciente) pode estar conectada com a geração de gatilhos negativos em uma sociedade tão desigual como a que vivemos? Conversamos com a psicóloga Cecília Dassi sobre o tema. 

“Os gatilhos em relação a condição financeira são importantes, pois vivemos em uma sociedade em que o capital tem um alto valor agregado. Se eu venci na vida, se eu tenho dinheiro é porque eu mereci, eu fui bem sucedido, eu fiz as coisas de uma forma certa. Existe uma validação no valor desse sujeito que é inconsciente, cultural, social”, afirma. 

Do lado da motivação de quem posta está o desejo de pertencer, de fazer parte de um grupo, de ser validado. E o dinheiro tem esse potencial no imaginário das pessoas. 

Do lado de quem acompanha, vale sempre se lembrar que às vezes a pessoa que ostenta pode estar abrindo mão de outras coisas muito importantes para ter aquele item. Nós só vemos uma parte, e isso aumenta a sensação de que todo mundo está “dando certo na vida”, menos nós. Isso sim pode ser uma forma de gatilho.

Novamente, a psicóloga nos convida a praticar a auto responsabilidade. Se como produtores de conteúdo entendemos a motivação por trás do nosso desejo de ostentar algo, podemos buscar nutrir esse desejo de forma mais genuína. Se como seguidores acompanhamos perfis que tem como característica principal a ostentação, podemos deixar de segui-los.

No entanto, mesmo com uma grande curadoria sempre pode sempre escapar algo. “É importante sabermos que é muito difícil nos blindarmos de tudo. Então nesses casos é importante acolher e lidar com a resposta emocional e buscar encontrar um caminho para lidar com ela”, afirma.

 

Encontrei um gatilho, o que eu faço?

“Quando o assunto é gatilho é importante pensarmos em responsabilidade e empatia”, compartilha @cecilia.dassi, psicóloga, em conversa com a Contente. “Em primeiro lugar responsabilidade com nós mesmos, com os conteúdos que seguimos. É preciso entendermos que quando falamos ‘apaga, tá me dando gatilho’ a outra pessoa não tem a obrigação de apagar porque você se sentiu incomodado. Precisamos nos responsabilizar e não ficarmos nos expondo a um conteúdo que nos faz mal.”

Mas, caso você encontre algum conteúdo que você considera ser problemático não somente para você e por sua história de vida, você pode sim explicar e apontar para aquela pessoa ou canal algo como “olha, isso é problemático por isso e por aquilo”.

Vale lembrar que quem publicou um conteúdo que você considerou equivocado pode ainda não ter parado para pensar sobre o tema ou mesmo não ter uma experiência de vida capaz de se tocar sobre a questão. Aqui entra a empatia na comunicação, o que aumenta as chances da troca ser bem sucedida. 

Outras dicas para lidar melhor com as reações emocionais mais complexas que podemos sentir quando estamos navegando:

Preste atenção nas suas emoções: 
assim é possível descobrir o que as desencadeou e passar a lidar com elas com mais facilidade. Vale refletir depois de uma reação mais forte: “de onde vieram essas sensações?”;

 Caso queira se aprofundar, anote o que sentiu:
sua reação, onde e com quem estava quando aconteceu;

 Lidando melhor: 
a medida que for conhecendo melhor os seus gatilhos, talvez você possa criar estratégias para passar a lidar melhor com eles. Se pessoas muito produtivas te causam ansiedade, você pode evitar esse tipo de conteúdo ou identificar em sua vida o que você poderia fazer mais que te daria alegria, por exemplo;

Mude a perspectiva: 
situações que parecem um obstáculo também podem ser um passo para o seu amadurecimento. E todos sabemos que o tempo é um bom aliado para lidarmos melhor com as nossas emoções.

Um exercício para ampliar o seu mundo

Quanto mais ampliamos a nossa visão de mundo, mais contextos vamos inserindo nessa teia que conecta a todos nós. As histórias são capazes de nos transportar para outros mundos, tão diferentes dos nossos, mesmo sem necessariamente termos de passar por aquela vivência. Nos emocionamos por amores que não vivemos, sofremos por dores que nunca sentimos, nos alegramos por fantasias não vividas. É o que acontece quando lemos livros, assistimos a documentários, filmes ou seriados, quando conhecemos histórias por meio de tantas expressões artísticas. 

As redes sociais também podem fazer isso por nós se tivermos o cuidado de inserir, no nosso dia a dia, histórias diferentes das que a gente e o nosso círculo mais próximo vive. Como é o seu feed? Cheio de gente que se parece com você ou é mais parecido com o mundo, tão diverso? Quanto mais contato você tiver com histórias diferentes da sua, mais a sua sensibilidade vai se expandir e mais chances você tem de criar um conteúdo benéfico, que se conecta não somente com a sua bolha, mas com toda a nossa família humana. Conta pra gente quais perfis te ajudam a ampliar o seu mundo?

Seja gentil

A verdade é que é muito difícil compreendermos a complexidade da vida e das histórias de cada um. Enquanto lutamos nossas batalhas particulares, estamos todos querendo nos sentir amados, valorizados, pertencentes a um grupo. Quando nos conectamos com esse sentimento, podemos lidar melhor com o conteúdo que vemos online – e com o que postamos também. 
Gentileza na hora de criar e na hora de consumir: esse parece ser um bom caminho para #ainternetqueagentequer. Já pensou em incluir a prática deste pensamento ao se sentir incomodado com algum conteúdo online?

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