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Gostou? Dê o crédito.

Por mais que em muitos momentos pareça, a internet não é terra de ninguém. O post que você curte, a foto de que você gosta, a arte que dá vontade de colocar na parede, o textão que elucida um assunto do seu interesse, a curadoria que te aponta novas coisas para conhecer… Por trás de tudo isso existe o trabalho de alguém. Trabalho esse que se materializa em um post simples, mas que é fruto de pesquisa e dedicação.

É provável que, se você cria conteúdo na internet e tem uma comunidade, seja ela de 100 ou 100.000 pessoas, já tenha se deparado com reproduções dos seus posts sem crédito. É ótimo ver que uma ideia sua se espalha para além do seu controle, né? Ao mesmo tempo, pode ser bem frustrante ver que as horas que você colocou ali não são reconhecidas.

Por isso, temos um pedido: se você gostou, dê o crédito. Vamos fazer da #ainternetqueagentequer um espaço que valoriza o trabalho, o olhar, a dedicação de tantas pessoas que decidem compartilhar o que têm de mais interessante?

@larissabrainer trabalha com comunicação digital desde 2010 e faz um panorama sobre o assunto. “O ato de compartilhar informação está no DNA da internet. Imagina que a internet é um corpo. O conteúdo que circula nela é o sangue, é o que a mantém viva e potencialmente interessante. Nós somos os canais por onde fluem esses conteúdos. E ele não pode parar. Senão, a internet morre. Então, compartilhar é natural, fazemos quase no piloto automático: gostei, printei, salvei, publiquei. Muitas vezes, as pessoas nem veem quem publicou (atire a primeira pedra quem nunca esqueceu uma fonte). E para muita gente, a visão é: se está na internet, é de todo mundo, então, posso fazer o que quiser. Ou até: não lembro quem fez, mas se botou na internet não importa muito. Mesmo veículos de comunicação, TV, jornais e revistas reproduzem essa lógica. Quantas vezes não vimos fotos, vídeos na imprensa com o crédito ‘Reprodução/Internet’. É uma questão cultural que tem a ver com a forma como fomos educados a ver a internet: uma terra de ninguém. Mas são muitos alguéns que a fazem, que a alimentam, que tentam organizá-la (alô, curadores).”

Por que é importante dar crédito?

Tayná Saes (@taynasaes), criadora de conteúdo, responde. Ela coloca suas crônicas em uma newsletter deliciosa, a @sutilezasatomicas, que também tem perfil no Instagram. Ela já perdeu a conta de quantas vezes viu seus posts e trechos de crônicas postados sem os devidos créditos. “Vi muitas citações e frases soltas serem utilizadas em novos layouts até mesmo de páginas de curadoria sem solicitação ou aviso prévio. Meu texto é meu filho, crio ele para o mundo, mas gosto de saber aonde está.”

“Antes de tudo, dar crédito não é gentileza, é um dever. Afinal, ser creditado é um direito de quem faz. Mas, para além disso, podemos pensar que a partir do momento que um trabalho está sendo compartilhado significa que ele é admirado por quem o compartilhou. E uma das melhores maneiras de fazer com que esse trabalho prospere é justamente creditando e, consequentemente, divulgando para que alcance novas pessoas e espaços.”

Ela cita o livro “Mostre Seu Trabalho”, em que o autor Austin Kleon diz que quando não atribuímos corretamente o crédito ao trabalho de alguém, não estamos roubando somente a pessoa que o fez, mas também roubando de todas as outras a oportunidade de entender melhor esse trabalho e conhecer criações semelhantes.

 

“Acho que com o passar dos anos perdemos o significado real da palavra ‘compartilhar’. Associamos a prática a um mero botão, uma ação com milésimos de segundos, e qualquer coisa que leve mais tempo que isso parece desnecessária. Porém, compartilhar é um movimento muito mais amplo, significativo e impulsionador. Dar crédito é reconhecer e acolher, é compartilhar pensamento, espaço e público. Somente com essa troca a conta fecha, porque ninguém perde quando divide, pelo contrário, a gente se espalha, se multiplica.”

Se entendemos que é importante dar crédito, a próxima pergunta que surge é: por que a internet facilmente vira terra de ninguém?

@taynasaes, do @sutilezasatomicas, responde. “Costumo dizer que a internet é um imenso corredor de livre acesso, cheio de portas escancaradas. É muito fácil percorrer, adentrar, consumir e, por esse motivo, os limites ficam cada vez mais obscuros. Do lado real do mundo, não entramos na casa de alguém e pegamos algo sem pedir, não chamamos nossos amigos para o open house de uma casa que não é nossa. Já na internet, é comum vermos ilustrações, fotos, textos e os mais variados tipos de trabalhos autorais sendo exibidos em outros espaços sem permissão, ou pessoas convidando seu público para explorar o conteúdo de um material que na verdade não pertence a elas. A internet quebrou muitas barreiras de tempo, distância e oportunidade, mas acabou derrubando limites importantes que a gente precisa reestruturar.”

@priii_barbosa, Ilustradora com mais de 67.000 seguidores, tem um destaque nos seus stories falando sobre créditos. Suas ilustrações que simbolizam tão bem a complexidade de ser mulher ganharam a internet – e também revistas e livros. Vira e mexe, ela se depara com uma criação sua sendo usada, até para fins comerciais, sem que ela seja remunerada por isso. “Muitas vezes já vi meu trabalho divulgado sem crédito. O crédito é o mínimo que uma pessoa/marca/empresa pode te dar quando se utiliza de um trabalho seu para autopromoção ou construção de feed. Essa falta de cuidado perpetua uma total desvalorização do nosso trabalho e do tempo empregado em criar um conteúdo autoral.”

“Compartilhar criações de um artista ou produtor de conteúdo pode parecer uma tarefa ingênua ou corriqueira, porém essa é uma das maneiras mais ativas de apoiar e incentivar um criador. Através desses compartilhamentos o alcance de uma ilustra, no meu caso mais especificamente, pode significar que eu chegue ao olhos de clientes em potencial. Dessa maneira, os créditos se tornam fundamentais para que o trabalho e seu autor sejam reconhecidos e devidamente valorizados. Se o conteúdo que foi criado te interessou, pode interessar outrxs também, então por que não dividir uma informação tão importante?”, ela questiona.

“Em tempos de Pinterest, julga-se que o que está na internet é de domínio público. As informações correm numa velocidade absurda e me parece que as imagens andam mais rápido do que suas legendas. Informações como autoria, colabs, explicações de contexto de projetos são arrancados da imagem como se não servissem pra nada. A troca de plataformas de compartilhamento também interfere nessa cultura de ver e não ler, sempre pensando na próxima imagem que vai surgir em qualquer feed que seja”, afirma @priii_barbosa.

Por que ainda engatinhamos na questão?

@priii_barbosa responde: “Acho que isso é só um prolongamento de uma discussão muito maior que é a desvalorização do trabalho criativo em si, algo não palpável e cujo processo de produção não é pensado pelas pessoas. Quem criou isso? Quanto tempo demorou? O que x motivou a criar? Como eu posso contribuir pra que elx continue a fazer esse trabalho que me agradou? Todas essas são questões não muito recorrentes nos usuários on ou offline. Não é a toa que trabalhos de criação, quando não glamourizados pelos filtros da internet, são considerados carreiras de risco sem grande probabilidade de sucesso. Poucas pessoas tem o privilégio se serem incentivadas a seguir essas carreiras, a desvalorização pra mim já começa aí.”

@larissabrainer responde: “Isso tem a ver com o tamanho e maturidade do mercado. No Brasil, um país imenso, o acesso a internet ainda é bem menor do que países como EUA, por exemplo. A ampliação desse acesso se deu mais intensamente a partir de 2014, quando o percentual de lares com internet passou de 50%. Ou seja, a nossa cultura internética está em processo de organização. Os ‘early adopters’ no Brasil talvez sintam um pouco de cansaço em ter que lidar com uma questão que pode parecer básica para quem usa a rede desde que era tudo mato. Eu vejo como parte do caminho. E não é só quem está ‘chegando agora’ que comete essas ‘gafes’. Foi há anos, nos primórdios da internet brasileira e da nossa cultura de memes, que cunharam o termo ‘kibar’ para falar de quem se apropriava de conteúdo alheio. Isso tem mais a ver com falta de valores de colaboração, com posicionamento auto-cêntrico, do que com falta de conhecimento de causa. Nos últimos anos, vemos diversos canais, páginas de Facebook, contas de Instagram crescerem e construírem grandes audiências apropriando-se do conteúdo original alheio, sem colaborar na construção do capital social dos criadores.”

Em outros mercados a questão dos créditos é tratada de forma diferente?

@priii_barbosa acompanha artistas e ilustradores internacionais e percebe os mesmos problemas acontecendo, principalmente no que diz respeito a marcas que copiam ou utilizam a criação de alguém sem crédito ou sequer autorização.

@taynasaes aponta que isso está ligado diretamente à questão do valor que se dá aos trabalhos criativos. “Infelizmente, confunde-se talento com facilidade e, por esse motivo, a complexidade que envolve qualquer trabalho autoral não é levada em consideração e não recebe o devido respeito.”

Para @larissabrainer, mercados maiores e mais maduros têm geralmente mais regras e boas práticas estabelecidas que mercados mais jovens ou ainda em processo de organização. E cita como bom exemplo o Curator’s Code, criado pela Maria a, do Brainpickings. “Essa curadora maravilhosa criou um site com ideia de orientar e educar a internet a creditar apropriadamente os curadores, as pessoas que ajudam outras a descobrirem conteúdos incríveis. Porque isso também dá trabalho. Mergulhar na internet, navegar por seus caminhos muitas vezes aleatórios, extrair sentido deles, filtrar as pérolas, e entregar às pessoas, também é um esforço criativo e intelectual a ser reconhecido. Em um comentário sobre o projeto, Tina Eisenberg, outra criadora, disse: ‘Eu quero que as pessoas deem os créditos às suas descobertas. Por que? Porque demonstra respeito e acima de tudo, nos permite descobrir novas fontes. O ‘via’ é muitas vezes uma porta virtual a um novo mundo mágico que eu não sabia que existia’.”

Foto: @floravnegri

Larissa Brainer (@larissabrainer) trabalha com comunicação digital desde 2010. Como diretora de comunicação da ONG Love.Fútbol e também em frilas de jornalismo e para clientes, ela se depara com a questão do crédito em diferentes cenários. E defende: o crédito para artistas, fotógrafos, autores, pessoas que têm como ofício a criatividade e a produção de conteúdo não é um favor. “Nossas ideias sempre podem ajudar a gerar novas ideias em outras mentes. Mas uma coisa é criar algo novo a partir de uma referência e outra coisa é apropriar-se de algo que não foi você que fez ou garimpou para ter ganhos – sejam eles tangíveis ou não. Não é porque está na internet que vale tudo.

“A pessoa gastou tempo de trabalho e algumas vezes até dinheiro pra criar algo, e se ela está disponibilizando gratuitamente, a moeda de troca mínima é a atribuição. Creditar as pessoas gera uma corrente positiva e de abundância. Ajuda a criar redes de pessoas afins, encurta caminhos para fazer novos contatos, novas amizades, para gerar parcerias ou conversas interessantes. Porque a pessoa creditada (com um simples via @fulaninha ou arte/foto/texto por @sicraninho) sente o reconhecimento, uma emoção positiva e possivelmente vai te agradecer, gerando uma conexão. Conexões são o que buscamos na vida, certo? Creditar ajuda a impulsionar as pessoas que admiramos. Também é uma oportunidade de mostrar quem e quais são as nossas referências, como construímos nosso repertório, os caminhos que percorremos para desenvolver nossas reflexões e ideias. Ou seja, também pode ser um elemento da nossa autoexpressão internética. Uma forma de dizer: ‘Olha, é disso aqui que eu alimento quem eu sou, minha criatividade’. É bom, é grátis, e é ~sexy~ para todo mundo.”

Como podemos criar uma cultura mais generosa em relação à autoria na internet?

@taynasaes, do @sutilezasatomicas responde: “Minha recomendação é a velha máxima: trate o trabalho do outro com o respeito que você gostaria que tratassem o seu, principalmente se você também for um artista ou criador de conteúdo. Nós não estamos mais na era da propriedade, vivemos a era do acesso. O hábito de reter informações só faz com que a gente acumule e viva com medo de perder. É preciso soltar essas amarras e fazer o movimento constante de coletar e espalhar. É essa doação que nos põe em movimento, que nos faz buscar mais, abre os olhos para o novo e nos permite reabastecer. A internet possibilita fazer parcerias, criar links e desenvolver as mais infinitas possibilidades de conteúdo colaborativo, usar isso a favor do seu crescimento é autêntico e o meio mais saudável para produzir. E para quem não produz conteúdo mas tem o hábito de compartilhar, fique atento a cada oportunidade de valorizar o trabalho de quem você gosta: dar créditos é ajudar a transformar a internet em solo fértil.”

@priii_barbosa: “Olhar pra internet como uma ferramenta de poder e pensar em como aliá-la aos seus valores pessoais. No meu caso, coloco como prioridade levantar o trabalho das mulheres e dos artistas, por conta da afinidade e identificação com o tema. Tento sempre pensar em estratégias que incentivem essas pessoas a criar e maneiras de mostrar o trabalho delas pras pessoas que me seguem e que podem, além de me incentivar, incentivar essas pessoas também.”

“É preciso uma mudança de cultura, da forma de se relacionar com os conteúdos. Imagina só se todo mundo que vê algo legal e resolve criar a partir desse algo desse o crédito? Exemplo prático: vi um post inspirador de alguém, que me fez querer escrever um texto sobre o assunto abordado. É uma mentalidade colaborativa, de criação conjunta, em rede, que está na gênese da internet. O que acontece é que muita gente pensa de forma restrita. Prefere esconder as referências para talvez passar uma ideia de que as coisas que pensa, faz, cria e descobre saem única e exclusivamente da própria cabeça, não bebem de lugar nenhum. Confiam que a maioria das pessoas não vai saber de onde aquilo surgiu. Principalmente quando a(s) fonte(s) são pessoas com menos alcance, fama ou prestígio. Algumas das marcas e dos criadores que mais gosto, inclusive, são os que creditam suas referências e compartilham os processos de construção de suas criações. É massa cruzar com algo bacana e saber os contextos que fizeram surgir aquela criação. Concluo meu textão com duas recomendações: o livro ‘Roube Como um Artista’, do Austin Kleon, e o documentário ‘Everything is a Remix’.” @larissabrainer.

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